sexta-feira, 16 de maio de 2008
ZARCILLO BARBOSA, uma vida em notícia
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SARAU-BUBA, COCA, ETERNA, GLICOSE, GRINGA, MUSTA, JB
Faltava um revisor no jornal O Correio de Marília.Um professor de português, que fazia parte da equipe de revisão do jornal, com a necessidade de um substituto para o cargo sobressalente, reconheceu em um de seus alunos a habilidade que a profissão requisitava.Assim começava a carreira de Zarcillo Barbosa, então um jovem aos quinze anos. Hoje, já com seus cabelos brancos, ele é um experiente jornalista e professor doutor da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP).
SARAU - Em sua carreira, o senhor tem que viajar para vários lugares, com vários compromissos e horários. Como fica sua relação com a família?
ZARCILLO BARBOSA - A família é um problema muito sério. Um jornalista tem que trabalhar muito, não tem hora para nada. Quando atinge um grau profissional, ele não pode ficar trabalhando apenas cinco horas por dia, como é a jornada de trabalho de um jornalista. É necessário outro emprego. São dez horas por dia. Isso é um grande problema para família, porque as esposas, os filhos, querem o pai e o marido dentro de casa, e isso nem sempre é possível. Você trabalhar em um jornal, você tem uma jornada estafante e isso acaba não sendo compreendido dentro de casa. Foi o que aconteceu comigo, eu sou casado duas vezes, minha primeira esposa não entendia isso. Eu era o editor do jornal, tinha que ficar lá até duas da manha pra fecha-lo.“Como você vai outra vez, vai sair de noite outra vez”, “Mas eu tenho que fechar o jornal”. Mas isso ai acabou deteriorando o meu relacionamento. Não fui eu que me separei, foi ela quem se separou. (risos). Todos os jornalistas que eu conheço estão no terceiro ou quarto casamento. E para resolver a questão eu me casei com uma jornalista.
SARAU - O senhor escreveu um artigo, “As Universidades e o Serra” (Publicada em 3 de junho do ano passado, no Jornal da Cidade), que teve grande repercussão no meio acadêmico, na ocasião dos protestos contra os decretos do governador José Serra. Como o senhor avalia essa questão?
ZB - As greves têm seu lado bom. Mas para o currículo escolar a paralisação demorada prejudica o rendimento e a transmissão de conhecimento. Há o custo/benefício. Devemos melhorar a universidade, batalhar pela melhora nos níveis de ensino. Às vezes para conseguir isso, o estudante precisa adotar medidas nada românticas. Foi o que ocorreu na última greve, em que eu escrevi um artigo sobre a invasão da reitoria na USP. A imprensa chamava aqueles jovens de baderneiros. Na minha visão eram “heróis da resistência”. Porque não é mole ficar num inverno chuvoso, ir acampar na frente da reitoria, comer mal, dormir mal, trepar mal, porque lá o chão é muito duro. Quanto à imprensa chamá-los de baderneiros, eu acho errado. Estavam defendendo uma causa. Não existe nenhum interesse, por parte das autoridades universitárias, de fazer um dialogo tornar-se produtivo, então é necessária a força, é assim que ocorrem todas as guerras. É assim que Marx e Lênin pregavam, “não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos”.
SARAU - O senhor acredita que há má vontade ou falta de disposição do Estado para que o Ensino Superior se desenvolva?
ZB - Exatamente, Educação nunca foi prioridade neste país, seja em todos os níveis, eu acho isso ai vergonhoso. Os governos se sucedem e todos eles querem apenas obras de fachada, obras que rendam votos. Então no governo militar construíram a transamazônica, e o que é hoje a transamazônica? A estrada das onças. Construíram a ponte Rio-Niterói, estádios de futebol nas grandes cidades. Um deles, construído em João Pessoa, era maior do que o número de habitantes da cidade, nunca lotou e nunca vai lotar.Por isso que temos um dos mais baixos rendimentos escolares do mundo. Nos igualamos ao Sudão e à Etiópia em rendimento escolar. Os alunos saem do primeiro grau sem capacidade para ler um parágrafo do livro e muito menos para interpretar esse parágrafo. Matemática, então, estamos em centésimo nonagésimo lugar. E como não temos uma consciência cidadã no Brasil, ninguém se preocupa com a educação.
SARAU - Estamos acompanhando notável avanço nas tecnologias digitais. Como será a relação dos veículos tradicionais com as novas mídias?
ZB - A internet ainda está em fase de criação e de modificação. Nós conhecemos hoje a internet, naquela telinha do nosso monitor, mas ela pode se transformar em uma folha de papel, permanente, do tamanho do jornal standard, onde se clica com o dedo e as notícias vão aparecendo como se fosse em um jornal convencional, só que não se utiliza papel, só uma folha de polipropileno que contem certos chips e sistema de captação.
Então tudo essas novas tecnologias estão sendo estudadas. No The New York Times, há uma comissão permanente, composta de jornalistas, cientistas, comunicólogos, pra estudar a evolução das maneiras de se comunicar nas novas tecnologias. Aqui no Brasil eu não conheço iniciativas parecidas.
SARAU - Há risco dessas novas tendências na mídias suprimirem as ditas mídias tradicionais?
ZB - Agora temos também o problema do rádio-jornalismo com a digitalização do rádio. O telejornalismo com a sua digitalização. Os automóveis já estão saindo com a internet acoplada. Existem rádios hoje que são transmitidas vias satélite..
Então, a transformação é muito grande. Agora existe uma coisa que não vai passar da moda, que foi objeto de minha tese de doutorado, a comunicação local. Há dois pólos, o pólo global e o local, comunicação de proximidade, como eles chamam, micro-regional, essa sempre será importante. A notícia tem como um de seus atributos a proximidade geográfica. O que está acontecendo na sociedade sempre será prioridade. Veja que em casa tenho duas filhas moças, e elas não lêem jornal como todo jovem, mas quando chega o final de semana , na sexta-feira, elas querem o suplemento cultural, pra ver a agenda do final de semana.. Isso nunca sairá da moda, essa notícia de proximidade, essa comunicação comunitária.
SARAU - Como o senhor avalia a situação do jornalismo local no Brasil?
ZB -Os meios de comunicação locais perdem muito tempo com o global. Isso se justifica também, por estarmos em um país muito pobre, as pessoas não têm dinheiro pra comprar dois jornais como acontece em países como o Japão, a Europa, os EUA. Aquele sujeito que só pode comprar o jornal da cidade tem que ter algumas notícias internacionais para não ter que comprar outro. É importante que esses jornais dêem essas noticias, mas eles gastam muito espaço, poderiam ser mais resumidas, e os meios de comunicação local se ater mais ao que acontece na comunidade, tem tanta coisa importante ai acontecendo, e ninguém fica sabendo, o que é uma pena.
Então a televisão dá ênfase à mesma coisa, nós não temos espaço para a nossa criação nem facilidade de divulgação, porque na televisão há até uma obrigação constitucional de abrir espaço para o regional e o local, principalmente para o noticiário local, mas também para a criação local. Toda forma de expressão artística ou verbal local devia “direito de antena”, isso no México já existe, na Europa também existe, todo meio de comunicação tem que facilitar a democratização do meio onde ele está instalado.
SARAU - Muito se falou a respeito da televisão digital, que ela democratizaria a produção televisiva brasileira. O senhor acredita que isso realmente é possível?
ZB - Em curto prazo isto não vai ocorrer, porque a TV digital requer um investimento financeiro muito grande. A legislação prevê que uma emissora comunitária se preste bem a esse papel fazendo entrevistas com as pessoas da comunidade, sejam elas importantes ou não, abrindo espaço para as várias correntes de opinião. Mas para se digitalizar ela terá que gastar pelo menos dez vezes que já gastou e do que compõe seu capital como empresa e não sei se o dono da televisão tem essa disposição de democratização. Portanto, existe essa dificuldade na digitalização e em curto prazo haverá esta opção, mas, evidentemente, isso permitirá uma melhora de padrão técnico e, se puder existir uma televisão comunitária com o mesmo padrão de imagem da TV Globo, poderá ser transmitida alguma coisa em pé de igualdade, Resta só o problema da formatação, mas pelo menos a imagem será limpa. A formatação é secundária, o difícil é se assistir a uma imagem toda poluída, cheia de chuvisco, é desagradável.
SARAU - O senhor vê a mídia como o Quarto Poder? Acredita que ela assume um caráter formador de opiniões?
ZB - A mídia nunca foi o quarto poder, nunca foi capaz de modificar momentos importantes da história brasileira. Já quanto a formação de opinião, depende de vários componentes, ninguém consegue convencer ninguém através de um artigo, de uma série de escritos ou de programas de televisão e rádio. A formação de opiniões é sempre produto de um reprocessamento de informações, e isto está cientificamente comprovado. As pessoas recebem informações e acrescentam valores arraigados a sua cultura e a sua educação para que se chegue a um veredicto em determinada situação. O jornalismo é apenas parte desse processo.
SARAU - O senhor acredita que vale tudo se para conseguir uma notícia?
ZB - Isso envolve aspectos ativos muito importantes e tem que haver mais reflexão sobre isso. Até onde é válido ir para se conseguir uma informação? O jornalista foi feito para escrever notícia e não para morrer, como fez Tim Lopes, que se envolveu numa missão perigosa na favela e acabou morrendo. Isso não deve ser exigido do jornalista e nem ele deve ter essa pretensão de aparecer. Já vi casos de jornalistas se oferecerem como refém de assaltante de banco para que outro refém fosse libertado. Evidentemente que ele só queria contar uma bela história. Isso tudo faz parte da “sociedade do espetáculo” e eu não concordo isso, tudo tem seu limite. Temos que ter uma coragem, mas uma coragem editorial, de escrever mesmo sob pressão dos poderosos, dos ricos, dos políticos e, às vezes, até desafiando o próprio interesse da empresa. Mas não deve se partir para o exagero de se entrar numa guerra, na frente de batalha, com o peito aberto, arriscado a levar um tiro que certamente levará.
SARAU - Falando em “sociedade do espetáculo”, nós estamos assistindo a um grande show sensacionalista da mídia com o caso Isabela e o julgamento do casal Nardoni. Como o senhor vê esse problema na imprensa?
ZB - É uma repetição do que eu aprendi com Guy Debord, sobre a “sociedade do espetáculo”, com a espetacularização da notícia a imprensa corre sério risco de repetir a história da escola de Base, de cometer uma injustiça contra essas pessoas que são apenas suspeitos. A legislação de todos os meios civilizados prevê a presunção de inocência, todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Eles ainda não foram julgados e condenados, portanto eles têm de ser tratados como suspeitos se fossem os autores do crime. Além disso, presença constante da televisão atrai muita gente que quer aparecer. Pessoas que se aglomeram em frente da casa dos pais, que não têm nada a ver com isso, a não de serem pais dos acusados. A comercialização sobre tudo isso, com aquela aglomeração de pessoas vai um cara e começa a vender sorvete Daqui a pouco um cara instala um parquinho de diversões com roda gigante como no filme A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder, lá na porta da casa da família Nardoni. Tudo isso é um exagero, a evocação do imaginário popular é que vende e esses exageros a imprensa tem o dever de evitar para a proteção, inclusive, da lei e dos direitos humanos.
SARAU - Finalizando a entrevista, o que o senhor espera de um aluno de comunicação social?
ZB - Eu espero que eles saiam da universidade conscientes que têm uma missão a cumprir e essa missão é a defesa dos interesses da maioria.
A sociedade brasileira precisa evoluir muito, nós temos grandes bolsões de miséria, apesar de ter melhorado um pouco, mas nós temos trinta e sete milhões de analfabetos funcionais. Isso é muito ruim, nós precisamos de mais investimentos na educação, nós precisamos de mais investimentos na saúde. Então esse é um dinheiro que está fugindo pelo ladrão, temos muita corrupção e se os jornalistas não lutarem contra ela, principalmente para melhorar o legislativo, aquilo que é público é usado como pessoal. Isso ai tem que acabar e essa é a grande missão de vocês quando saírem da faculdade. Espero que vocês não se conspurquem, usando um termo jurídico... Não vendam a alma ao diabo! E evidentemente vocês não poderão se abstrair das necessidades das leis de mercado. Vocês não podem ser tão utópicos a ponto de ignorar isso, mas nunca devem se esquecer que tem que sobrar sempre um tempinho pra combater as mazelas sociais deste país, que são muito grandes.
Colaborou para a editoração da entrevista Vanessa Silva(glória)
sábado, 10 de maio de 2008
A Inverossimilhança cotidiana
Escrever uma história dramática não é das tarefas mais simples. Não são raros os exemplos no cinema e na teledramaturgia em que os autores erram a mão e contam histórias excessivamente emotivas. Contudo, algumas pessoas têm histórias pra contar que a seqüência absurda dos fatos nunca poderia convencer alguém, não fosse simplesmente por ter realmente acontecido. Tânia Araújo Vieira é uma dessas pessoas.As OITO postagens abaixo são da edição de uma entrevista emocionante que me fora cedida no último sábado , dia 03/05.
Protagonista

. Hoje, aos 24 anos, ela deveria estar casada, possivelmente seria mãe e com muitos planos para o futuro. Infelizmente, um acidente de carro alterou completamente essa previsão.
A própria Tânia se define com portadora de um temperamento
terrível. Julga-se uma pessoa muito explosiva, ainda aprendendo a se controlar. Quando explode, explicita tudo que a incomoda, mesmo que precise pedir desculpas, o que muitas vezes acaba lhe trazendo confusões. Está sempre tentando tomar as atitudes certas, mas nem sempre consegue: “Eu costumo dizer que sou apenas uma menina tentando crescer. E vivendo e aprendendo...”.
Contudo, Tânia atribui seu temperamento explosivo ao fato de suportar muita coisa sem reclamar: “Eu procuro ser calma, mas esse é o problema: É agüentar muita coisa quieta, e quando quero explodir, transbordar.”.
O estopim dessa explosão é a mentira:
“Eu sempre ajo com muita sinceridade e eu peço que ajam assim comigo.”
Por isso, qualquer tipo de mentira a ofende, mesmo as mais simples: “Principalmente nas pequenas coisas, nas quais não há necessidade de mentir. É o que me magoa mais. Por que se uma pessoa mente por coisas pequenas, imagine por que coisas não vá mentir.”
Labuta
Apesar de ser recepcionista, Tânia trabalha com o faturamento médico da Clínica Blue Star, na zona norte da cidade de São Paulo. Gosta da profissão, por mais que estressante principalmente por conta dos prazos e da informatização do serviço, que gera muitos atrasos: “A gente tem que faturar e entregar sempre no prazo”. Para amenizar a tensão do serviço, Tânia conta com o auxílio de suas colegas de trabalho. Mas nem sempre foi assim:
“Já tive muitos problemas com pessoas que saíram. Hoje, graças a Deus, o convívio é muito bom.”
“Antes, o que dificultava essa convivência era a falsidade, a mentira, a Picuinha, gente tentando nos derrubar, sem que pudéssemos imaginar.”
Ainda que o ambiente esteja melhor agora, as fofocas continuam a lhe causar bastante irritação: “o que acontece muito aqui, é a gente falar alguma coisa e o assunto chegar totalmente distorcido na sala 25, que é a sala da diretora. E o pior é que ela gosta de saber de tudo. Nossa direção não quer fofocas, mas acaba influenciando.” Por mais que conteste esse posicionamento da diretoria, Tânia tem uma boa relação com a sua diretora: “A gente tem problemas profissionais, mas como pessoa eu a admiro”.
Lar. Doce lar?
A relação que tem com seu pai vem melhorando recentemente, mas o ritmo dessa evolução não é muito encantador : “A cada coisa que vai acontecendo na vida da gente, ele vai se aproximando mais, e eu vou descobrindo um pai que eu não sabia que eu tinha.”Segundo Tânia , seu pai só percebeu a importância da família quando perdeu o emprego de auditor do banco Santander, entre os anos de 2004 e 2005.Até que isso ocorresse , chegava a passar dois meses sem vê-lo: “quando a gente era criança ele viajava e ficava um ou dois meses fora; Ele queria fazer auditoria em outros estados. Por isso a gente mal o via quando isso acontecia ele já chegava estressado e mal-humorado. A gente não teve o amor dele enquanto foi criança.”
Essa ligação conturbada com o pai fortaleceu a união de Tânia com a mãe, que continuava casada para que se mantivesse a família. Seus irmãos desistiram de tentar fazê-la mudar de idéia e apenas Tânia continuou ao seu lado: “Eu sofria tudo o que ela sofria, passava tudo que ela passava.”.
Sua ligação com seus irmãos, entretanto, é muito boa. Seu irmão também trabalha com faturamento médico, no hospital Sírio Libanês, e sua irmã mais velha é professora de inglês e espanhol.
Tem muito carinho por seu irmão, ainda que não o demonstre fisicamente : “Ele só quer companhia para ficar sentado na mesa e comer. Mesmo assim um carinho muito grande”.
Já com sua irmã mais velha, a relação é um pouco diferente: “minha irmã eu abraço, beijo e tenho “eu te amo” pra lá e pra cá”.
Essa diferença, contudo, não revela uma predileção, apenas um tratamento adequado á personalidade de cada um, e ás experiências que dividiram: “A minha irmã é cinco anos mais velha, então, quando eu jogava bola, era com meu irmão. Mas eu tenho essa relação de amor, de carinho com ela. Ele eu não abraço, não beijo, mas eu sei que ele está ali sempre. Tem vezes que ele olha pra mim, e é como se eu já sentisse um beijo, um abraço. É muito bom, além de irmãos eu tenho os dois como amigos.”
O homem da casa
Com o pai ausente , coube ao irmão desempenhar a figura masculina da casa: “quando havia brigas, meu irmão abria a porta do quarto dele e a discussão acabava. E quando eu ia casar, queria que meu irmão entrasse comigo na igreja, porque eu não tive pai.” Essa decisão tinha como reforço o fato de Tânia ter enfrentado problemas com seu pai por conta do seu relacionamento. Quando tinha planos concretos de casamento com Alexandre no entanto ,seu pai teria se resignado: “Meu pai se mostrou tão diferente depois que passeia ser mais tolerante com ele , só que eu tinha até medo que no dia ele não quisesse entrar. Meu pai é uma pessoa totalmente temperamental.”
Ainda assim, como ainda não confiava na aceitação do pai preferia que seu irmão a acompanhasse ao altar: “Eu já tinha deixado meu irmão ciente de que ele quem entraria comigo na igreja. Até porquê foi ele que sempre cuidou de mim, mesmo quando criança”
A relação entre as figuras paternais de Tânia não é das melhores : “Meu irmão fala que meu pai é um imbecil, e me perguntava por que eu entraria com meu pai na igreja”.
Sua irmã mais velha compartilha da opinião: “A minha irmã dizia que ,se ela se casasse, entrava na igreja sozinha”.
A definição que Tânia dá para a situação do relacionamento de seus irmãos com seu pai é bem crítica:“Eles não o consideram como pai, só eu o vejo dessa forma. Só eu que ainda tenho paciência.”
O problema da cor
O cinema tem muitos roteiros contando a vida de famílias com pais ausentes. Bem , a realidade pode ser bem mais criativa , posto que não deve nada a verossimilhança. Tânia se apaixonara por Alexandre, um homem encantador, que lhe fizera retomar o desejo de viver e fazer planos depois do término de um romance bastante extenso. Ele só possuía um defeito, que seu pai faria questão de ressaltar .Não era um defeito para Tânia, nem para maioria das pessoas. Mas era inaceitável para seu pai. Alexandre era negro.
Seu pai não implicara com o primeiro namorado de Tânia .Eles tiveram um longo relacionamento que acabou não dando certo. Não parecia que seria ciumento , ou que iria se importar ,já que era distante da família. Contudo, essa fase da vida de Tânia seria muito conturbada: “eu tinha terminado um relacionamento de seis anos quando eu conheci o Alexandre. Meu pai era racista, meu novo namorado era negro, meu pai me colocou pra fora de casa quando eu assumi o namoro. Só voltei pra casa porque a minha mãe disse “minha filha, volta e você sai”.
A partir desse fato Tânia fez de tudo pra ficar com Alexandre, para mostrar para seu pai que não era a cor da pele que define o caráter das pessoas: “o Alexandre é muito melhor que muito branco por aí”, eu acho que ele até entendeu o que eu quis dizer...” Era um relacionamento difícil. O pai de Tânia, ao ver mulatas de carnaval por exemplo, dizia que não imaginava seus netos “negrinhos”. Mas com o tempo, Alexandre se mostrou uma boa pessoa ,e foi tornando seu sogro uma pessoa mais maleável. Quando Tânia perguntava ao seu pai se era contra o casamento, ele passou a responder: “você feliz é o que conta, eu quero a sua felicidade”.A resposta vinha em tom conformista , mas não mudaria a decisão de sua filha caso fosse contrária a relação. Na verdade , comunicava ao seu pai do matrimônio, não lhe pedia uma autorização.
Os casal se conheceu por uma amiga em comum. Num período conturbado da vida de Tania:“ Eu namorei durante seis anos e acabei me acomodando ,a gente não sente mais amor, só a convivência, então decidí terminar .Meu ex-namorado na época não quis acreditar e me procurava insistentemente.
Foi nesse período que conheci o Alexandre, que era cunhado da minha melhor amiga. Coincidentemente, ele e eu fomos padrinhos da filha dela. Passamos a conviver e, aos poucos fomos nos conhecendo e aos poucos nosso relacionamento foi nascendo.”
Pedido de casamento
Até o pedido de casamento , o casal passou por muitas provações:“Depois desse convívio nos tornamos íntimos ,e “ficamos”. No seguinte meu ex apareceu, eu sentava na porta da vizinha, aí ele disse: “Eu sabia que você estava com ele, sua filha da puta!”e me bateu. Entrei correndo pra casa na esperança de encontrar abrigo, mas Minha mãe achava que eu ainda estivesse com ele. Meu pai me trancou no quarto e me bateu de verdade .Depois ,me colocou pra fora de casa .Morei cerca de quinze dias com a minha cunhada.”
Durante o ínterim que esteve fora de casa,Tânia se afastou de Alexandre: “Ele não sabia como agir, não tava entendendo nada, eu tava perdida naquela situação”.
Mas logo se reaproximaram devido ao contato com a afilhada em comum. A forte relação os fez começarem um romance em segredo. A situação não agradava Tânia: “Um dia eu me incomodei, por que eu não tava fazendo nada de errado, sentei com meu pai e falei tudo o que eu tinha para falar. Perguntei se ele se preocupava que eu engravidasse?expliquei que namorávamos mas que não corria esse risco. Falei que ele era melhor que muito branco. Meu pai respondeu:“O que for melhor para você...está bom”. Só falou isso.”
Com o tempo, o convívio entre o casal e o pai de Tânia foi aumentando, pois visitavam parentes em comum.
“Lentamente , meu pai passou a cumprimentar o Alexandre ,e a aceitar nossa união.
A partir daí nossa relação foi se tornando mais sólida e o Alexandre falou que pretendia se casar comigo, isso foi em novembro de 2005 e nós deveríamos nos casar em junho de 2006, mas, por questões financeiras, não deu certo, a gente começou a brigar e tivemos que adiar nossos planos.”
Começaram a fazer planos de forma mais lenta e acabaram por marcar o casamento para o dia 02 Junho de 2007.
Apesar de enfrentarem os problemas aos quais estão vulneráveis quaisquer casais , o romance se fortalecia com o passar do tempo . “Eu dormia muitas vezes na casa dele, e ele me acordava cada dia de um jeito, fosse tocando violão e cantando, com café na cama, ou me beijando até que eu acordasse , e, claro ,eu fingia que dormia só pra aproveitar ainda mais o momento.”
Foi inevitável que comparasse a situação que vivia com Alexandre naquele momento com a fase em que o relacionamento começou:“Quando eu terminei o meu namoro de seis anos, eu me sentia feia, não via esperança em nada. Estava mal, e ele me mostrou a vida; me ensinou a lutar mas cuidava de mim acima de tudo. E sempre me agradava com presentes , do bombom que eu mais gostava á marca de cerveja que eu preferia”. Um presente dado por Alexandre que a marcou muito foi um cacto, pelo caráter especial que a planta carrega, e por mostrar uma proximidade de personalidades entre o casal, o prazer que compartilhavam nas pequenas coisas da vida. Outra prova dessa identidade ocorreu no primeiro aniversario que Tânia completou durante o namoro. Alexandre lhe enviava uma rosa a cada hora, como uma forma de mostrar-se presente, já que o emprego não o permitia estar fisicamente ao lado da aniversariante.
Inverossimil destino
A rotina do casal parecia estabilizada .Preparavam-se para o casamento .O pai de Tânia não se opunha ao casal , eles vinham desenvolvendo seus projetos com segurança. Toda via ,planejar a vida implicitamente exige contar com incertezas, admitir que nada fora do de costume virá a acontecer ,ou que, pelo menos ,poder-se-á retomar os planos após determinados revezes. Essa maneira de prever o futuro nos é tão intrínseca que nos faz questionar as estórias que fujam desse padrão. O desfecho da história de Tânia e Alexandre, no entanto, provada pelas lágrimas da jovem de vinte e quatro anos durante o depoimento, não poderia ser prevista: “Tínhamos um relacionamento muito bom. Faltava 15 dias para o nosso casamento. Nós estávamos estressados ,mas muito felizes. Era o dia da última prova do vestido. Ele havia me deixado na costureira, e enquanto eu fazia a prova , foi ver algumas coisas. Depois de eu provar o vestido , ele me deixou na clínica. Era uma hora. Passou na casa de um amigo e de lá iria buscar o irmão dele pra irem ao Buffet. No caminho para a casa de seu irmão , bateu o carro e faleceu.
Isso ocorreu exatamente no horário que eu ia almoçar. Liguei no celular dele, porque senti, como disse tínhamos uma ligação muito forte. Minhas amigas me pediram na época: “Tânia , não vá pra casa almoçar, almoce aqui com a gente,” e acabei concordando. De repente, tive uma sensação estranha e resolvi ir pra casa . Quando eu subia a rampa de acesso á clínica para ir embora, liguei no celular dele.” “Um rapaz atendeu, Havia muito barulho e eu não estava entendendo, só ouvia alguma coisa sobre o carro. Perguntei se ele teria deixado o carro pra lavar, mas me responderam: “Não, ele sofreu um acidente de carro, Já chamamos um resgate, que está chegando, fique calma”. Pude ouvir as sirenes, quis saber onde estavam, mas o atendente pediu pra eu ligar depois para que ele me passasse mais informações.” Assim ,voltei correndo, contei às minhas amigas e pedi que fossem comigo para o local do acidente, mas elas me acalmaram. Mesmo assim eu pensava que ele devia estar preso nas ferragens, pois ele teria descido do carro. Por ele não ter atendido o celular e ter esperado o resgate chegar, eu sabia que não estava bem”.
A moca que era minha chefe na época ligou pra lá e eles a informaram que o Alexandre estava desacordado. Depois nos disseram que não havia hospital pra levá-lo, faltavam vagas e acabaram por conduzi-lo ao hospital Mandaqui , em Santana ,(zona norte de São Paulo). Cinco minutos depois de eu e meu cunhado chegarmos ao local, o médico veio nos dar a notícia. Ele parou na porta e perguntou: “Os parentes do Alexandre?”. Ao confirmarmos, o doutor disse que tinham feito de tudo, mas o Alexandre já havia chegado ali em óbito.
Meu cunhado teve um ataque epilético e desmaiou, eu fiquei parada olhando pro médico. Meu pai, que estava comigo, colocou a mão no meu ombro e a Celina, uma amiga da clínica onde trabalho, foi socorrer meu cunhado. Ouvi tudo que o doutor tinha pra me dizer, e fiquei estática. A Celina veio falar comigo, eu lembro de rir e falar:“ele morreu”. Ela me Perguntava: “você está entendendo que ele morreu?” e eu ria. Fiquei em estado de choque , não chorei no começo, liguei pras pessoas que eu tinha que ligar pedindo para virem para o hospital. Dei a notícia ao meu sogro, que perdera sua primeira esposa no parto do Alexandre .Ela é o grande amor da vida dele. Dizer: “Olha, você perdeu o grande amor da sua vida pra ter seu filho, e agora você perdeu seu filho.”foi muito delicado, mas eu dei a notícia. Deste dia em diante fui perdendo a noção do que estava fazendo: liguei para a minha mãe e tivemos a seguinte conversa: “Olha mãe, o Alexandre morreu” , “Como morreu?”, “Ah mãe, morreu”, “Não, ele vai casar!”,“Ah, morreu!”. Depois da noção do que aconteceu, perdi as lembranças. Eu não lembro de muita coisa. Lembro-me de quando meu irmão chegou ao hospital com a minha mãe. Só olhei pro meu irmão e já cai no choro. Sempre falo que o momento mais marcante na minha memória é estar sentada com a Vanessa, uma enfermeira aqui da clínica, olhando o Sol se pôr atrás das árvores. Assistia ao pôr do Sol e questionava: “ O que eu faço com tanto amor dentro de mim?” E a Vanessa respondeu: “Ele vai estar pra sempre dentro de você” E é isso, ele vai estar pra sempre dentro de mim, eu falei pra ele no caixão que eu ia cuidar de mim. Sei que não estou cuidando direito, mas estou cuidando, estou seguindo, porque era isso que ele queria que eu fizesse, queria que eu vivesse, que eu fosse feliz. Ele sempre fez de tudo por mim, sempre fez de tudo pra me ver sorrir e se ele não está aqui pra fazer isso, eu vou me esforçar pra fazer.”
Contar a história
O comportamento tão afetivo de Alexandre faz Tânia pensar que nunca encontrará um companheiro que a faça tão feliz. Tanto que, seguindo conselhos de sua mãe e amigos, nem espera o mesmo comportamento do ex-noivo em um novo namorado, nem faz comparações.
Tânia acredita que tivessem uma relação espiritual . Uma relação muito forte, mas que se suprimiu com o falecimento de Alexandre. Credita o fim desse vínculo a uma razão superior, a qual a impedira de continuar com o romance. Crê na possibilidade de continuar o romance num outro plano, caso exista tal transcendência.
Das suas principais motivações para continuar vivendo e tentando atingir a felicidade, Tânia ressalta a vontade de Alexandre em vê-la bem sempre. Desejo que o amante não mediu esforços pra alcançar.
Apesar disso, a recepcionista afirma que não vê mais sentido no mundo, sente que sua vida acabou com o acidente que vitimara seu antigo amor. Segue a vida pelas obrigações. Procura ser feliz, mas vê grande dificuldade sem a companhia de Alexandre.
Felicidade para Tânia está nos pequenos momentos que passa com crianças da família, com o atual namorado, o qual , percebe-se , não supre a falta do antigo, mas é um bom co
mpanheiro.
Ainda que goste de crianças e que tivesse planos com Alexandre, Tânia sente que não será mãe. Tem grande vontade de ter filhos, mas, por alguma razão que desconhece, duvida muito dessa possibilidade. Talvez, segundo ela, a grande dificuldade seja encontrar alguém capaz de fazê-la sonhar novamente. Não quer dar a luz antes de ter certeza que terá condições de dar-lhe tudo que precisa. Não imagina o que a faria ter vontade de ter filhos novamente, até por duvidar que isso possa ocorrer.
Tânia resume suas esperanças a acreditar que um dia possa sonhar novamente, fazer planos, acreditar que a vida volte a fazer sentido.
Fotos do arquivo pessoal de Tânia Araújo Vieira.